Sobre meu coração de carne que sangra todos os dias.

Hoje passei na sua rua. A dor foi muito grande, não somente pela saudade, mas também por tudo que aquele lugar já foi para mim… Ou ainda é.

Mãe, me diz que não é só eu que penso na gente. Por favor, me diz? Me diz que ainda pensa em tudo que a gente fazia junto, que eu não sou só um estorvo ou a pessoa que rompeu com a união da família. Me diz que ainda lembra de quando ríamos até chorar e eu te fazia fazer xixi na roupa de tanta risada. Me diz que lembra que eu sou sua Ferrari por causa de todos esses pinos que eu ganhei na coluna depois da minha cirurgia. Me diz que vai fazer sopa porque tá frio, que posso levar o notebook para o meu quarto e ver séries até tarde porque tô meio resfriada. Mãe me conta pela milésima vez como foi trabalhar para aquele nigeriano, me conta da sua infância, do seu dia, da sua vida. Por favor, deixa eu ficar em casa, você sabe como eu sou chata, antissocial e só penso em mim, mas por favor, deixa eu ficar quietinha no meu quarto ouvindo música nos fones de ouvido e fazendo origamis. Mãe, deixa o Pururuca dormir comigo? Posso deitar no seu colo? Me leva na casa do Caetano? Mãe, você tá me ouvindo?

Mãe. Mãe. Mãe. Mãããããe!

Acaba com isso, por favor?

Mãe, me ajuda? Fala que sou eu que sou neurótica porque pareço demais com você, me diz que vai ficar tudo bem e que não é tudo tão difícil?

Eu tô com medo, Mãe.

Diz que nossos gatinhos sentem minha falta, diz que ainda posso cantar música raiz para você a meia-noite quando você tá tentando dormir.

Eu só não sei o quê fazer. Tô tão perdida, Mãe.

Mãe, me perdoa por tudo aquilo que eu disse e me põe dentro do seu casaco para tomar meu leite antes de dormir. Eu prometo que vou fazer minhas lições de casa, que não vou dar bola para o que a Gabriela fala e que vou comer as frutas e o iogurte que você comprou. Quem dera fosse tão simples, né Mãe?

Me sinto como se não pertencesse a lugar nenhum, Mãe. O maior conforto nesses últimos meses tem sido a Marina. Mas me sinto uma estranha, uma pecinha de lego tentando se encaixar no quebra-cabeça.

Como diria Saramago:

"Arranca metade do meu corpo, do meu coração, dos meus sonhos. 
Tira um pedaço de mim, qualquer coisa que me desfaça. 
Me recria, porque eu não suporto mais pertencer a tudo, mas não caber em lugar algum.”

Onde foi que eu me perdi tanto, Mãe? Me ajuda a achar um caminho?

Eu sinto falta de você, Mamãezinha. Do seu cheiro, da sua voz, da sua risada.

Porque eu, eu continuo aí. Na sua porta, esperando, não sei o quê. Mas esperando. Estou aí, na sua porta, desde o dia em que fui embora.  

Me devolve? Devolve você também?

Mãe, eu sinto falta de nós, Mãe. Não há nada no mundo igual a isso.

Mas enquanto ficamos assim, eu fico aqui à deriva. Prometo tentar não me afogar. Fico aqui esperando sua luz, para poder me orientar.

Eu amo você, Mamãezinha.

Me ama?